A camada do Direito que não vira palavra
Construir IA jurídica que funcione de verdade exige captar e reproduzir um contexto jurídico nem sempre chega a ser expresso em palavras.
Em 1966, Michael Polanyi abriu o livro The Tacit Dimension com seis palavras que continuam atuais: We can know more than we can tell. Sabemos mais do que conseguimos dizer. A frase descreve uma característica do conhecimento profissional que os advogados reconhecem de imediato. Quando um cliente pergunta o significado de um termo jurídico específico, a resposta sai imediata, de um jeito que nem sempre conseguimos destrinchar passo a passo. O raciocínio está ali inteiro, mas grande parte dele opera em camadas que não chegam a virar palavra.
Esse hiato acompanha qualquer profissão densa. Parte do que se sabe não se conta porque é pressuposto entre os pares, parte não se conta porque não tem forma verbal fácil. Numa conversa entre dois advogados sobre o mesmo caso, uma palavra puxa três implicações que nenhum dos dois precisa explicitar. Quem está fora do mundo do Direito perde duas dessas três, e quase sempre não percebe que perdeu.
O método que falta
Ikujiro Nonaka publicou há vinte e cinco anos um diagnóstico sobre por que empresas ocidentais costumam perder conhecimento que empresas japonesas extraem. O argumento central é que a definição de conhecimento usada por gestores ocidentais fica estreita, presa ao explícito. O modelo dele identifica um passo que costuma ser pulado: a externalização. É o trabalho de passar o que o especialista sabe para uma forma que outra pessoa consiga usar.
Sem essa etapa, qualquer ferramenta construída em cima do conhecimento do especialista aprende só o que foi explicitado em palavras. O resto, que é boa parte do que o especialista usa de fato quando está operando, fica de fora.
Quem atravessa as duas margens
O profissional que faz essa ponte é aquela pessoa conectada dentro do próprio domínio e fora dele, capaz de fazer informação atravessar fronteiras que para a maioria são opacas.
O conceito vale para qualquer interrelação entre disciplinas. Fica particularmente útil quando a interface é Direito e tecnologia. Profundidade nos dois lados é o que define essa figura, que faz essa travessia levando consigo o que importa de verdade para a outra margem do projeto.
O que o mercado já mostra
Advogados consideram precisão e alucinação como as principais preocupações ao usar IA. Em 2025, análise da Bloomberg Law sobre IA jurídica mostrou queda na adoção declarada, de 58% para 40%, em comparação com a expectativa registrada no ano anterior. São recorrentes as notícias de uso irresponsável de LLMs, com aumento de sanções a advogados por petições com citações de jurisprudência inventadas pela IA.
Os números desenham um descompasso entre o que a tecnologia oferece e o que o mercado jurídico consegue incorporar com segurança. Modelos de linguagem capazes existem em abundância. O que escasseia é interlocutor com profundidade suficiente para construir ferramenta capaz de processar contexto além de texto.
O que muda quando alguém ocupa os dois lados
Quem transita entre os dois mundos consegue captar do advogado o que ele quer, o que está fazendo, o que planeja para a próxima fase, onde estão os gargalos do escritório, quais restrições jurídicas pesam em cada movimento e quais implicações práticas se desdobram de cada escolha. Esse mesmo profissional sabe traduzir o que captou em requisitos que o desenvolvimento entende, com perda mínima de nuance entre as duas margens.
A maioria dos projetos de IA jurídica fracassa nesse ponto de tradução. O advogado descreve o problema com o vocabulário do ofício, e o desenvolvedor reconstrói uma versão simplificada do que ouviu, perdendo nuances que vão fazer falta no produto final. A ferramenta que nasce dessa conversa resolve um problema próximo do real, sem chegar ao real em si.
O valor que se entrega na consultoria de IA jurídica está exatamente nesse trânsito. Quem ocupa essa posição passa tempo suficiente dentro do escritório para captar o que não chega a ser dito e tempo suficiente perto do desenvolvimento para que o captado vire requisito sólido. A gestão do conhecimento já mapeou as peças do problema, passando pelo caminho da externalização.
A frase de Polanyi continua viva seis décadas depois. Construir IA jurídica que valha o nome depende exatamente de quem consegue puxar o que o advogado sabe sem dizer.
